Da Rússia a São Tomé e Príncipe, de dentro para fora

11.4.16
Esta semana começo a escrever os posts sobre esta nossa riquíssima viagem a São Tomé e Príncipe.


Hoje, quero apenas partilhar um “acaso” (coisa que não existe nas nossas vidas). Tínhamos tudo programado para irmos para a Rússia. Só eu preciso de visto, já que a Venezuela tem acordos com este país e tanto as miúdas quanto o pai, são também venezuelanos. Deu um trabalhão tratar do visto (hei-de contar-vos, em pormenor, noutra altura). Entretanto, a TAP altera a data da ida e ficamos com menos dias disponíveis. Ainda refiz o roteiro mas não iríamos aproveitar muito. Além disso, em Moscovo, tinha acabado de cair o maior nevão dos últimos 50 anos e estava um frio de rachar! Como não é possível acrescentar dias ao visto, também não era praticável regressar mais tarde e compensar a ida mais tardia. Depois de muitas negociações (árduas) com os hotéis, consegui que, pelo menos dois, aceitassem a alteração das datas para Setembro. Assim, e em cima da hora, ficamos com as férias da Páscoa em aberto. Ponderamos vários destinos. Seleccionámos locais quentes e o mais naturais possível. Mas, faltava encontrar aquele lugar, aquele onde a nossa ida pudesse realmente mudar algo nas nossas vidas e na de terceiros... Eis que, “do nada”, surge São Tomé e Príncipe!
O Ernesto na Venezuela e eu em Portugal. Era 1h quando iniciámos a busca conjunta de voos, alojamento... Às 4h a tarefa estava, finalmente, concluída com sucesso. Daí a dez dias partíamos para uma das grandes aventuras das nossas vidas.


Em miúda quis ser missionária para embarcar para África, com as irmãs do colégio (sou antiga aluna Salesiana). Enquanto não ia, enviava bens – material escolar, roupa, calçado... Com o crescimento, entendi que as missões se fazem também em casa e foi assim que entrei (de forma muito singela) neste admirável mundo (o Ernesto já acompanhou parte deste percurso – sim, caminhamos juntos há praticamente 21 anos). Primeiro em Cascais, no Bairro da Torre. Onde hoje irradiam luxuosos edifícios, existiam barracas. Era ali que viviam dezenas de famílias, a maior parte de origem africana, totalmente desamparadas. Foi o primeiro contacto com os rostos e nomes dos que pouco ou nada têm e isso: faz muita diferença, toda, aliás! Ajudar à distância é fácil, é indolor. Enche-nos de alegria mas é efémero, não custa. Estar no terreno muda toda a perspectiva e recebemos muito mais do que o que alguma vez possamos dar. Voltei a ter vontade de fazer as malas e partir. Na Venezuela também participamos em acções de voluntariado mas de uma forma mais distante por causa da insegurança absurda em que o país está mergulhado e isso, não me preenche... Agora, estava a dias de completar 40 anos e, além do Ernesto, tínhamos as nossas duas filhas com quem eu podia partilhar este sonho antigo. Fomos e, se nunca voltamos os mesmos das viagens que fazemos, desta vez então, somos outros!


Conhecemos pessoas que, de tão altruístas e fraternas que são, bem podiam ser corações com nome. Conhecemos, crescemos, demo-nos mas recebemos muitíssimo mais, e não é um cliché. Outra coisa que aprendemos foi, e por incrível que possa parecer, a pobreza não é igual em África e na América Latina. Em África, aceitam genuinamente o que se lhes dá, na América Latina (e a nossa experiência reduz-se à Venezuela), olham primeiro para as marcas do que se lhes oferece. É quase alienígena mas é real e revela tanto do mundo em que vivemos...


Duas coisas que os quatro trouxemos como certeza: queremos regressar e sim, “serás abençoado quando te fizeres bênção na vida dos outros”!

2 comentários:

  1. Respostas
    1. É um destino inesquecível, Tomás! Por todos os motivos e mais alguns, como relatarei nos próximos posts ;-)

      Eliminar