110

19.2.15
Já passava das 22 horas quando nos entregaram o carro, em Santo Domingo, capital da República Dominicana. Em pleno Agosto, no calor tropical e com o avançar da hora, só aspirávamos a um banho, algo leve para jantar e repousar. Saímos da rente-a-car rumo ao hotel, situado na zona histórica. Parte da cidade de Santo Domingo estava, literalmente desventrada (em obras de requalificação) e o GPS não descobria percursos alternativos. De repente, no breu da noite, um homem com ar patusco e bem disposto gesticulava, no meio de um estaleiro, na estrada. O Ernesto quis parar, eu preferia seguir, afinal, estavamos os dois, com duas crianças, sozinhos, no meio da noite, numa cidade da América Latina, com todos os riscos que isso possa implicar. Mas também sabemos que são pessoas mais descontraídas e calorosas e paramos para pedir informações!
O homem, sorridente sentou-se no capot do carro, perante a minha desconfiança, enquanto nos mandava seguir por ruas e ruelas esburacadas, em sentido contrário (nas barbas da polícia), por cima de passeios, ao mesmo tempo que cumprimentava e era saudado por locais. Algo que nos aliviou ligeiramente a inquietação de estarmos à mercê de um desconhecido, no mínimo suis generis. As miúdas primeiro perplexas, sobretudo a mais velha e depois divertidíssimas estavam a delirar, riam como se não houvesse amanhã, o pai seguia à risca as instruções tresloucadas do guia improvisado e eu rezava (por fora e ria por dentro) para que o homem não se despencasse do carro, nós não fossemos engolidos por uma cratera, não chocássemos com outra viatura e chegássemos rapidamente ao destino. Passaram 15 minutos que me pareceram uma eternidade e às miúdas apenas um hilariante instante. Terminava esta façanha, tínhamos chegado ao largo do hotel, sãos e salvos. O guia, com alcunha de 110 (ninguém nos conseguiu explicar a origem)seguiu a sua vida, feliz com a generosa gorjeta e no encalce de mais algum viajante em apuros. Nós? Começávamos outra aventura: o hotel, escolhido com tanto cuidado, era afinal um engodo. Cenas para outro capitulo...

Sim

15.1.15

O “bichinho” pelas viagens nasceu antes de sermos pais. Sempre que possível, fazíamos as malas e partíamos à aventura. A 31 de Março, de 2006, sentimos, em uníssono, o chamamento para a paternidade. Estávamos sentados, em contemplação, no Parque Guell, em Barcelona, um lugar de infinita perfeição. Chegara a hora da nossa família aumentar e da aventura ganhar outra cor, cheiro, sabor, intensidade…




Viajei em todas as gravidezes até ao sétimo mês de gestação (a partir desse período a maior parte das companhias aéreas só autorizam a grávida a viajar excepcionalmente e se acompanhada de autorização médica). A 21 de Março de 2007 nascia a Constança. Nesse instante “organização” passou a ser a palavra de ordem na casa.

Para nós, viajar em família (agora com duas filhas) é uma bênção ímpar. Partilhamos convosco aquelas que consideramos serem as maiores vantagens destas viagens.

Estarmos juntos, pensarmos e agirmos em família

O “brinquedo” predilecto das crianças é, sem dúvida a companhia dos pais! Seja no seu país ou fora, o importante é passar o maior tempo possível, em família, com qualidade. Ora, isso implica atenção, dedicação, respeito e carinho! E é só preciso estar presente, deixar a vida revelar-se… A família sai a ganhar, a união ganha novo rosto!
A construção de laços familiares saudáveis promove uma cidadania exemplar!





World Schooling

O mundo é um palco e viajar permite-nos acompanhá-las em genuínas aulas empíricas ou não fossem as crianças esponjas ávidas de novos conhecimentos! Desde aulas de cidadania, história, geografia, estudo do meio, idiomas, astronomia... As crianças crescem nas várias formas de comunicação (verbal e sobretudo, não verbal) e ficam muito mais receptivas a novas realidades.

A interacção e partilha com culturas e sociedades singulares permite formar melhores cidadãos! É ainda possível usar alguns dias das férias para fazer voluntariado, e também assim crescermos todos. Afinal, “é dando que se recebe”...

Estas experiências revelam-nos que o que temos não determina a verdadeira felicidade mas, o amor ao próximo, sim. A verdadeira felicidade encontramos no que somos. A humildade ganha terreno! O diferente é interessante! A tolerância é companheira!

Organização e responsabilidade

Este tipo de aventuras obriga a uma logística e rotina cuidadas. Desde a escolha dos destinos - uma vez por ano colocamos o mapa mundo em cima da mesa. De costas atiramos um dado, onde cair será o próximo destino de férias, as restantes vezes sentamo-nos em frente do mesmo mapa, verificamos quanto tempo podemos despender na viagem, orçamento disponível, estação do ano e preferências de cada um. A organização das malas, criação de roteiros... todas as tarefas são partilhadas e adjudicadas consoante as capacidades e gostos de cada elemento. Cá em casa sou eu (mãe) quem separa as roupas com a ajuda da filha mais velha, verifico a máquina fotográfica (paixão que partilhamos as duas), GoPro, o pai faz as malas (consegue colocar o Rossio na rua da Betesga), a mana "minúsca" ajuda como pode. Antes há toda uma preparação (estudo da história do país, costumes, hábitos, tradições) com toda a família envolvida e ainda o estudo dos guias adaptados à mana "maiúsca" (com muitas imagens e mapas) que ela ainda não lê.




Adaptação

Por mais que programemos os imprevistos acontecem (e ainda bem). Um voo, comboio, barco que atrasa ou é cancelado, um transfere que não aparece, o transporte de alimentos que não podem entrar no país de destino, uma febre súbita, alergia ou intoxicação... Aqui partilhamos uma viagem que podia ter passado de sonho a pesadelo se tivéssemos permitido, coisa que não fizemos, óbvio.

E é nestes momentos que a família é posta à prova, que as crianças podem ter comportamentos inesperados e que são tão úteis para reforçar os laços e uma oportunidade para lhes dizermos que estamos sempre com eles, mesmo quando estão stressados e quando as coisas correm menos bem. Lições únicas no aperfeiçoamento da auto-confiança e de como lidar com a frustração.

Estes são momentos perfeitos para que as crianças cresçam num ambiente de adaptação, uma espécie de: “Não tens cão? Caça com gato!” As férias continuam e: melhores!




Memórias emocionais

A neurociência já demonstrou que temos memórias corporais e emocionais desde o ventre materno. Por isso, apesar de viajarem ainda bebés e de mais tarde poderem não se recordar da imagem do destino, na memória emocional fica registado, para sempre o que sentiram nessa viajem! O nosso cérebro não tem “DEL”. Estas são memórias eternas, que nos acompanharão para a vida!

Ainda têm receio de viajar com os vossos filhos?!