O som da "Ave Maria" de Verdi anunciava boas novas. A melodia harmoniosa do movimento das águas dava-nos as boas-vindas! A sensação, ao sair da estação de comboios era a de que tínhamos acabado de mergulhar num sonho de esplendor e beleza sem precedentes!
Chegamos a
Veneza (Venezia), a cidade que, garanto: Deus esculpiu ao pormenor, à semelhança do céu, só pode!
Nietzsche dizia e com tanta razão, "se eu tivesse que encontrar uma palavra que substituísse música, eu só conseguiria pensar em Veneza!".
Cruzamos pontes, percorremos, sem rumo e sem mapa ruas e ruelas (uma forma divertida e descontraída de aumentar, ainda mais a cumplicidade em família) e o mistério que envolve esta cidade divina é tal que acreditamos ser surpreendido por Giacomo Casanova, nalgum virar de esquina. As crianças amam ser guias nestas ruelas! É uma genuína viagem ao século XVIII (excepção feita aos milhares de turistas em quem quase tropeçamos).
Veneza, construída sobre bancos de areia desde a Idade Média está muitas vezes inundada (consequência do degelo decorrente das alterações climáticas) mas fomos bafejados pela sorte e encontramo-la seca, apesar da chuva que insistia em cair, no primeiro dia. E é tão divertido passear à chuva com as miúdas, saltar nas poças de água, abrigarmo-nos nas ombreiras das portas das lojas…
O ritmo da cidade é marcado pelas
gôndolas (embarcação tradicional veneziana que oferece passeios de 45 minutos, para dois adultos e duas crianças, por €80) e pelos "
vaporettos" (autocarros aquáticos com bilhetes a €7 por passageiro, válidos por uma hora) que rasgam os canais e atravessam o Grande Canal. Duas das principais atrações para as crianças que ficam encantadas com as decorações das embarcações e com os cânticos do gandoleiros (enquanto remam) mais equilibristas que navegadores. Já nos “vaporettos”, os melhores lugares são (com muito cuidado) junto às grades, para que os mais novos não percam pitada.
Calcorrear Veneza com carrinho de bebé? Uma aventura mas possível! O desafio não está em circular mas em atravessar as pontes que cruzam os canais. Não é a cidade mais bem preparada para acolher estes veículos, ou cadeiras de rodas mas já vão existindo algumas rampas e um elevador suspenso, bem interessante. Nada que perturbe o veneziano romantismo intrínseco.
Os opulentos palácios aristocráticos (construídos por comerciantes abastados e por nobres na idade do ouro veneziana), ao longo do Grande Canal sequestram-nos para um conto de príncipes e princesas. Os proprietários, vaidosos, abrem as janelas para que os transeuntes possam vivenciar a beleza que os esculpe e decora. O entardecer aqui dá vida aos edifícios e um chocolate quente torna o passeio ainda mais doce.
O
Grande Canal é como a “avenida” principal da cidade. A primeira coisa que fizemos, ao chegarmos a este pedaço de céu na Terra, foi entramos no primeiro Vaporetto para desvendarmos este canal sublime. Claro que, também as crianças ficaram encantadas!
A cidade é invadida por aromas e é impossível resistir a um gelado tradicional ou a um delicioso
Tiramisu, acabado de confeccionar. Uma actividade divertida e gulosa é assistir ao fabrico destas iguarias.
A
Piazza San Marcos é celestial!
Artistas de rua, centenas de pombos atrevidos (que os pequenos, destemidos gostam de alimentar (para meu grande pesadelo que tenho fobia a pássaros) e centenas de turistas dão-lhe vida.
Rodeada da
Basílica San Marco, o
Campanile (com uma vista impressionante do alto), a
Torre do Relógio (construída no final do século XV, exibe as fases da lua e os signos do zodíaco, representados em azul e dourado no grande relógio. Uma oportunidade divertida para uma aula de astrologia. Conta a lenda que depois de concluída, os autores da obra foram cegos para que não pudessem repetir nada semelhante. No cimo está a figura do leão alado de San Marco, símbolo da cidade de Veneza), o
Museu Correr e o
Palácio Ducal (residência dos governantes de Veneza, chamados de doges, no século IX) conferem-lhe uma autenticidade excepcional.
A
Basílica San Marco, uma das catedrais mais exóticas da Europa é paragem obrigatória. Ainda assim, e dependendo da idade das crianças pode ser uma visita cansativa uma vez que não é permitido sair da fila, no trajeto pré definindo.
E um dos símbolos de Veneza é a
Ponte de Rialto, em forma de arco, parcialmente coberta é a única que liga as duas margens do Grande Canal, no coração da cidade. Ao lado e a não perder: o
Mercado principal de Veneza que invade as manhãs de segundas e sábados. Toda a família pode desfrutar dos queijos, peixe fresco e um sem fim de produtos e pregões venezianos. A ocasião perfeita para interagir com a cultura gastronómica e o bom humor das gentes locais.
Ao lado da Piazza San Marco surpreende-nos a
Ponte dos Suspiros, uma das mais importantes de Veneza. É feita de rocha calcária branca e janelas com barras de pedra. Reza a lenda que se dois apaixonados se beijarem no exacto momento em que a atravessam de gôndola, na altura do pôr-do-sol, o seu amor durará para sempre. As crianças gostam imenso de conhecer as lendas associadas ao locais. Nós entrámos numa livraria, muito acolhedora e comprámos para a Constança um livro só com as lendas venezianas. Acompanhou-nos sempre!
Junto à
Igreja de Santa Maria della Carità está situada a
L'Accademia di Belle Arti di Venezi, conhecida apenas por
Accademia é o maior museu de Veneza. A entrada é gratuita no primeiro domingo de todos os meses. Pode não ser a visita mais interessante para uma criança pequena.
Il Canovaccio é mais um ponto irresistível desta viagem. Envolto numa atmosfera misteriosa e colorida, aqui pode comprar ou apenas observar as famosas máscaras de Veneza. O risco que corre é o das suas crianças quererem comprar uma colecção de máscaras!
Teatro San Gallo, um teatro mágico, uma noite inesquecível! Aqui toda a família ficará a conhecer, numa breve história os encantos de Veneza. A não perder!
Se estiverem em Veneza, no primeiro domingo de Setembro aproveitem para assistir a um dos mais belos espetáculos da Europa, a Regata Histórica. Gôndolas, bissones e outras embarcações desfilam o esplendor da cidade com tripulantes e convidados trajados a rigor, para reviverem a história da cidade.
Como chegar a Veneza
Avião
Veneza está ligada às principais cidades italianas e europeias por diversos voos diários. O aeroporto Marco Polo fica próximo da cidade de Mestre. Daí saem autocarros, táxis, táxis aquáticos e motoscafos, (barcos de passageiros relativamente baratos apesar de lentos) até à Piazzale Roma, em Veneza. A opção mais económica, para toda a família são os autocarros da empresa ATVO.
Carro
Só compensa ir de carro se o roteiro da viagem incluir outros lugares na mesma região, até porque além de ter que levar ou alugar as cadeirinhas para as crianças, estes veículos não entram em Veneza, ficam parqueados num estacionamento na entrada da cidade, onde termina a estrada (Piazzale Roma), ou nalgum lugar próximo no continente (Mestre é a melhor opção, as outras são Tronchetto, Marghera, San Giuliano, Fusina, Tessera ou Cà Noghera). Depois de estacionar terão que se deslocar de autocarro, comboio ou barco até Veneza.
Há
comboios directos para Veneza desde praticamente todas as cidades italianas. Veneza é ainda ligada aos grandes centros europeus por comboios de alta velocidade. Para chegar à cidade desembarcamos na estação Venezia–Santa Lucia. Dependendo da origem do comboio pode ser necessário mudar na estação Venezia–Mestre, que fica no continente. Há comboios, ao longo de todo o dia entre ambas as estações e a agradável viagem demora cerca de dez minutos.
Chegar a Veneza, pela primeira vez de comboio é mágico! A primeira imagem, assim que saímos da estação é a do Grande Canal. Entramos numa viagem no tempo...
Alojamento
Por serem, regra geral estadias menos prolongadas, optamos por hotéis centrais e amigos das famílias. Podem parecer mais dispendiosos mas é só ilusão, já que poupam em transportes e ganham em tempo. Do grupo Accor, os Novotel têm sido, para nós uma escolha muitíssimo agradável. Quartos ao estilo americano: espaçosos, com tábua e ferro de engomar (sim, regra geral gostamos de andar engomadinhos), sofás-cama para as crianças, casas de banho generosas e com banheira... Restaurantes com múltiplas e deliciosas opções, zona de brincadeira bem apetrechada e funcional, wi-fi gratuito.
Alimentação

O cardápio gastronómico de Veneza inclui peixes, frutos do mar com arroz e feijão, além de aspargos, abóboras e ervas, vegetais típicos da região do Vêneto. Quase todos os restaurantes oferecem menus a preços fixos (ficam mais em conta do que os pedidos a la carte).
Se puder, não deixe de ir dar um salto ao afamado Harry's Bar para saborear o autêntico Bellini, uma bebida que mistura prosecco com sumo natural de pêssegos rosados e não dispense um lanche no Caffé Florian (na Piazza San Marco, inaugurado em 1720, a mais antiga pastelaria em funcionamento na Europa), famosos por oferecerem receitas divinas como carpaccio, bellini e chocolate quente. Nós, somos fãs do Caffé Florian e do seu ambiente glamoroso. Eu e a Constança do seu chocolate quente e o pai e a Madalena do Club Sandwich. Aqui e ao som sempre de uma orquestra, pomos em prática o “people watching”, uma actividade tão divertida e enriquecedora que as crianças adoram e acompanham. Os preços estão ao nível do status deste espaço. Não se esqueçam de provar os deliciosos Baoacoli Veneziani. Biscoitos típicos venezianos feitos com manteiga, farinha, açúcar, fermento e clara de ovos.
Sugestão em família
Comprem um tiramisu, sentem-se na beira de um canal, saboreiem-no e deixem-se invadir, sem pressas pela estonteante beleza desta cidade museu ao ar livre!
Fizemos as malas com a certeza de que voltaremos a este éden, classificado pela UNESCO de Património Mundial da Humanidade e onde já fomos felizes mais do que uma vez: Veneza!
Ao lado de Veneza está a encantadora Murano. A família Camacho conta-nos a sua experiência neste
post.