Há desejos (aparentemente inexplicáveis) que se cumprem! No dia em que completei 39 anos estive onde queria estar: na Grande Mesquita do Sultão Qaboos, em Muscat, Omã.
Sou apaixonada pelo mundo religioso e pelo poder milagroso da FÉ. Apesar de Católica Apostólica Romana, sobretudo o Islão, o Judaísmo e o Budismo sempre me fascinaram. Desde miúda que sinto uma terna fraternidade pelos mesmos. Mas hoje, o mundo está diferente (parece que os valores estão invertidos, depravados) e não são poucas as vezes que se ouve atribuir esta transformação aos árabes e ao Islão... Confesso que, desde há um tempo, cada vez que avistava uma mulher com vestes tradicionais árabes sentia um desagradável aperto no coração. Pela cabeça passavam-me mil e uma questões mas uma estava a tornar-se irritantemente permanente: “Será que é fundamentalista?”... Eu tinha que agir e mudar este pensamento e consequentemente este sentimento e estado! Foi por isso que fomos conhecer parte da Península Arábica.
Por isso, e porque queríamos que as nossas filhas experimentassem uma forma diferente de estar na vida, que afinal, nem é assim tão desigual! E, precisamente no dia 30 de Março de 2015, Deus/ Alá enviou-me a um lugar sagrado para me apresentar uma amiga que ficará para a vida... (já lá volto)
A Grande Mesquita do Sultão Qaboos
Garantem ser a terceira maior mesquita do mundo. Imponente, ela é o grande exemplo de arquitectura islâmica moderna. A sua cúpula dourada, minuciosamente trabalhada e decorada está ladeada de refrescantes jardins com piso em mármore em diversos tons de branco imaculado a luzir. Os cinco minaretes que a rodeiam representam os cinco momentos diários de oração.
No recinto trabalham dezenas de homens que garantem a sua limpeza e preservação.
O Islão e a sua vivência são fáceis de explicar e exemplificar às crianças, elas entendem, aceitam e querem experimentar algumas práticas. Nesta mesquita existem muçulmanos preparados para nos auxiliarem nessa tarefa.
Um verdadeiro fascino para todos os que a visitam e contemplam.
Dentro da mesquita, sucedem-se pormenores e pormenores de requinte, o tapete persa da oração (o segundo maior do mundo feito à mão) e o lustre (de cristais Swarovski milimetricamente centrado) tornam-na ainda mais mágica. Ainda que, a maior magia venha do alto... envolve-nos uma energia inigualável, sentimos que Ele está (também) ali…
Dica
A entrada na mesquita é gratuita contudo, exige traje adequado - mulheres com cabeça, braços, pernas e colo cobertos e as calças são obrigatórias para os homens, já as crianças podem vestir o que bem entenderem. Se não estiverem preparados podem alugar no Centro Cultural Islâmico, situado no mesmo recinto. Aqui servos-ás ainda oferecida água, chás, café, tâmaras e a possibilidade de conhecerem a fundo os principais fundamentos desta religião. A mesquita está aberta, para visitas de sábado a quarta-feira, entre as 08h e as 11h.
Saímos do interior da mesquita, estavam 40 graus (apesar de ainda ser o final da manhã), aproveitámos para descansar sob o fresco da sombra das árvores, em flor... Sem termos notado estávamos às portas do Centro Cultural Islâmico.
Uma mulher aproxima-se da Madalena, que lhe estende uma flor. Os olhos da senhora, vestida de negro revelam um amor maior e uma comoção genuína que combina com gestos dóceis e educação eximia. Na minha memória e no meu coração este é um momento cristalizado, “ad aeternum”. Nem desconfiava que era afinal, o meu maior presente de aniversário... Acerco-me das minhas crias e da mulher. Ela pede-me para as fotografar. Pergunto com que finalidade, responde-me que as considera lindas e a bebé por ser tão branquinha, de olho cinza e loirita, ainda a fascina mais. Aceito, não há maldade naquela criatura. Serve-nos água, tâmaras e convida-nos para um chá e sentamo-nos a conversar, como fazem as amigas de longa data.
Atiya, assim se chama a nossa mais recente amiga, tem 50 anos, um casamento feliz e cinco filhos. É a única esposa do seu marido.
Falamos sobre costumes e tradições de ambos os países e continentes. O que para nós pode parecer uma violência à liberdade da mulher (como o uso da hijab) é para elas motivo de orgulho. São tradições e devem ser respeitadas (todavia, nos dias que correm estão receptivas a mudanças e já não é tão comum ver as mãos tapadas com as luvas, por exemplo), até os casamentos, nas gerações mais jovens já se realizam apenas entre uma mulher e um homem, a bigamia (lentamente) tem vindo a ser abandonada... Falamos ainda sobre maternidade, a importância da mulher no seio da família e na sociedade, de gastronomia, moda e encontramos (facilmente) os pontos e apreensões comuns na religião. A família de Atiya segue o Alcorão e nós a Bíblia (os fundamentos são tão semelhantes). Maria, Jesus e os apóstolos são comuns a ambas as religiões.
Quando, um dia regressarmos a Omã, ela e a família estarão à nossa espera.
As diferenças que podiam separar-nos são, afinal, semelhanças que nos unem. Tal como eu, Atiya teme pelo fundamentalismo no qual o mundo parece estar, cada vez mais mergulhado. Lamenta que se use a religião e a pretensa fé como armas de arremesso contra inocentes e indefesos, que a violência se sobreponha ao diálogo e ao entendimento, que os valores estejam tão subvertidos que dói...
Tal como eu, Atiya é filha de pais honrados e incríveis, esposa de um homem íntegro, de bons costumes, mãe de filhos perfeitos (dentro das suas limitações e imperfeições), mulher de fé e de vontades maiores. Tal como eu, rege-se pela máxima de que tem que ser a diferença que quer ver no mundo!
Oh Atiya gosto tanto de si!
Obrigada, meu Pai!
P.S – Omã é, nesta altura, uma bomba-relógio à semelhança de outros países do Médio Oriente e do Golfo. A Arábia Saudita e o Irão têm, aos poucos estreitado relações com Omã numa tentativa de imporem e exercerem um islão extremista. A situação no Iémen, outro país fronteiriço com Omã está também a começar a ter reflexos causando já desconforto social e há cristãos a abandonarem este país. Ainda assim, o Sultão continua a defender a harmonia religiosa e trabalha no sentido de promover o diálogo entre muçulmanos e cristãos: “Não há paz entre as nações sem paz entre as religiões, e não há paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões” – Sultão Qaboos bin Al Said



































