Estou trajada a rigor (saia longa, camisa branca, com manga comprida, sem decote e um lenço a cobrir-me a cabeça) ainda assim, sou chamada a vestir o traje tradicional feminino de Abu Dhabi.
Aguardo a minha vez e a espera proporciona-me uma visão que é como que uma espécie de esgrima de olhares femininos, uns de admiração outros de desdém e recriminação. Nós, mulheres, somos peritas em falar com olhares. Tantos espelhos de tantas almas...
Visto a Abaya (uma versão moderna da burca que cobre igualmente todo o corpo da mulher, excepto o rosto) e o mundo muda, dirijo-me para o interior da Grande Mesquita Sheikh Zayed.
A ostentação de toneladas de mármore da Macedónia, ouro de 24 quilates e cristais Murano tornam-se migalhas num oceano, cada vez maior de certezas enquanto os pés deslizam no tapete persa mais macio até então por mim pisado. É o maior do mundo e saiu das mãos de 1.200 mulheres iranianas que ao longo de um ano o confeccionaram com a entrega delicada que só as mãos de uma mulher podem dispor.
Ao colo, a Madalena pede chão, quer que me sente. Instintivamente ajoelho-me, ela assalta-me os braços, a Constança senta-se, dá-nos a mão e olha para o Alto. Ficamos, inexplicavelmente as três em silêncio, unidas, numa espécie de oração comum... Vejo, em frente dois guardas da mesquita. O primeiro impede o segundo de nos obrigar a levantar. Falam em árabe mas percebe-se o descontentamento de um (que vê a situação como herege) e a aprovação de outro (que nos olha com ternura e compreensão).
Levantamo-nos e prosseguimos a visita. Tudo à volta é luz, delicadeza, é energia, pormenores, perfeição...
No tecto e nas paredes, versos do Alcorão, escritos em três tipos diferentes de caligrafia arábica.
A Madalena volta a parar e diz: “menino”. Olhamos, ao nosso lado um pai muçulmano com os seus filhos visitam o mesmo espaço. Não vejo a mãe mas imagino que seja uma mulher bonita, a avaliar pelas crianças. O pai explica-lhes detalhes mas a tenra idade não os deixa focar a não ser no que realmente interessa: brincar. E Deus/ Alá não se zanga, pelo contrário, o pai sabe e consente.
Cruzamo-nos com várias famílias muçulmanas. As mulheres caminham ao lado dos maridos e dos filhos, felizes e serenas. Estamos lado a lado com um jovem casal do Bahrain, em visita a Abu Dhabi. Ela mete conversa, não muita que o local não se presta a isso, mas a suficiente para perceber que pensamos tal e qual: a mesquita foi esculpida e desenhada à imagem e semelhança de uma mulher. Pelo seu doce encanto, por ser “discreta” por fora mas impressionante por dentro, “pobre” no exterior e tão rica no interior, por não descurar nenhum pormenor, pelos seus contornos... A essência feminina parece estar aqui sacralizada. Um autêntico oásis para a alma e para os sentidos.
Ao contrário do que imaginava a Abaya não me deixa sem fôlego, remete-me sim para o essencial. Não tenho que me preocupar em ajustar a camisa, em cintar a saia, em ajustar o relógio ao pulso, nem as pulseiras, o fio ao pescoço... Somos todas iguais. Será que no Ocidente andamos afinal, mais desfocadas? Depois deste dia acredito que sim.
No fim da visita, a confirmação de uma convicção: quero que as minhas filhas sejam mulheres à semelhança daquela mesquita - singelas (ainda que bonitas) por fora e grandiosas por dentro.. Afinal, "o essencial é invisível aos olhos".
Dica
A Grande Mesquita Sheikh Zayed abre diariamente para visitas, das 9h às 22h (a última entrada é às 21h30). À sexta-feira, de manhã abre as portas apenas aos fiéis e às 16h30 ao público. Existem vistas gratuitas, com guia que duram uma hora. De domingo a quinta realizam-se às 10h, 11h e 17h, à sexta-feira às 17h e 19h e ao sábado às 10h, 11h, 14h 17h e 19h.
Os homens devem usar calças e as mulheres podem levantar (gratuitamente) a Abaya, no piso inferior da mesquita.



























