As crianças vivem no mesmo mundo que nós vivemos mas com uma perspectiva própria. Se descermos ao patamar destes maravilhosos seres e se nos permitirmos olhar o mundo com os mesmos olhos que eles, sem filtros, vamos encontrar um planeta encantador, cheio de milagres e de mistérios.
As crianças estão a viver tudo pela primeira vez. Para elas, a vida é em si mesmo um estado de graça!
E é uma profanação interromper o estado de graça da vida com um cubo colorido de plástico que emite sons. É uma profanação interromper o milagre da existência para lhes sussurrar que o nome desta e daquela forma é X, que o cheiro é Y... Alguém se atreveria a interromper um monge que contempla o horizonte para o questionar sobre a formiga que anda na terra? Por acaso interromperíamos o biólogo que observa a formiga para lhe oferecer um cubo mágico e pedir-lhe que tente com que cada face fique com uma só cor? Para a criança, a vida é suficiente!
Testemunhar a vida (nos primeiros meses), conquistar a vida (nos primeiros anos), participar da vida (durante toda a infância), questionar a vida (do meio para o fim da infância e na adolescência), contribuir para a vida (na adolescência madura e juventude) e modificar a vida (na juventude e maturidade). Nessa ordem. A vida basta!
Rompemos sem pudor, pelas cores, aromas e sons característicos do fim do Verão, nas planícies alentejanas. O fresco das sombras, o fresco da água límpida que corre na ribeira. Saboreamos o mel, ainda a escorrer do favo, acabado de sair da colmeia, as frutas colhidas das árvores, sem tratamento, tal e qual vieram ao mundo, a sopa feita com os sabores que brotam daquela terra fértil…
Para a "minusca" da casa, os 23 meses convidam a testemunhar e conquistar a vida e a vindima é sinónimo de sentir a textura da uvas entre os dedos, aperta-las, colhê-las do cacho e saborear, uma a uma, sem pressa que o dia é longo.
Já a "maiusca" explora, ao seu ritmo e intensidade, o doce Alentejo que lhe nutre o corpo e a alma. Está a participar da vida!
No fim do dia, de braços abertos aos céus, sou uma mãe tão grata e tão feliz!
E a vida basta!








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